Psi Malu Gouveia
12 de julho de 2026Cessação do tabagismo6 min de leitura

Parar de fumar sem trocar o cigarro por comida (ou pelo celular)

"Parei de fumar e engordei oito quilos." "Larguei o cigarro e agora não largo o celular." Nos três anos em que coordenei o Programa de Cessação do Tabagismo do SUS em Florianópolis, aprendi que essas histórias não são desvios do processo — são o processo acontecendo sem plano. O que sai de um lado precisa de destino do outro.

Por que a substituição acontece

O cigarro nunca é só nicotina. Ele é pausa, recompensa, algo para fazer com as mãos, um jeito de baixar a ansiedade em trinta segundos. Quando você para de fumar, todas essas funções ficam vagas ao mesmo tempo — e o cérebro, que detesta vácuo, contrata o primeiro candidato disponível. Comida e celular são os favoritos porque estão sempre à mão e entregam recompensa rápida, exatamente como o cigarro entregava.

Há também um componente físico honesto de mencionar: a nicotina acelera levemente o metabolismo e reduz o apetite. Ao parar, é comum um ganho de dois a quatro quilos mesmo sem mudar a alimentação. Esse efeito é limitado e administrável — o grosso do ganho de peso relevante vem da substituição de função, não da química.

A pergunta certa não é "o que comer no lugar"

É "o que esse cigarro específico fazia por mim". Na terapia cognitivo-comportamental, mapeamos cada cigarro do dia antes da data de parada e desenhamos uma resposta para cada função. Alguns exemplos do que isso significa na prática:

Autocompaixão realista — não complacência

Se você parar de fumar e ganhar dois quilos, isso não é fracasso: é um resultado extraordinariamente melhor para a sua saúde do que continuar fumando. A autocrítica feroz ("parei de fumar e virei outra dependência, sou um desastre") costuma levar de volta ao cigarro — é o mesmo mecanismo que faz a vergonha atrapalhar a próxima tentativa. Autocompaixão realista é o meio-termo: reconhecer o deslize, entender qual função ficou descoberta e ajustar o plano, sem drama e sem desistência.

E uma ressalva importante: se além do processo de cessação você quiser suporte específico para alimentação, nutricionista e médico são os profissionais indicados. O mesmo vale para apoio medicamentoso à cessação — quando indicado, sempre com prescrição e acompanhamento médico.

Perguntas frequentes

É normal engordar quando se para de fumar?

Um ganho de dois a quatro quilos é comum e tem componente metabólico. Ganhos maiores costumam vir da substituição do cigarro por comida — algo que um plano por gatilhos, montado antes da data de parada, reduz bastante.

Como parar de fumar sem substituir por outro vício?

Mapeando a função de cada cigarro do dia e escolhendo, com antecedência, uma alternativa específica para cada uma — pausa, respiração, movimento, recompensa planejada. Substituição acontece quando as funções ficam vagas sem plano; é isso que o acompanhamento psicológico estrutura.

Psicólogo ajuda a parar de fumar sem engordar?

Ajuda: o trabalho de mapear gatilhos e construir respostas alternativas é exatamente o que evita que a comida assuma as funções do cigarro. Para questões nutricionais específicas, o ideal é somar nutricionista ao processo.

Atendo cessação do tabagismo em formato individual e em programas corporativos, presencialmente em Valinhos-SP e online. Se você quer parar de fumar com um plano que cubra cada gatilho — e não apenas força de vontade —, convido você a conhecer o processo.

Malu Gouveia Psicóloga · CRP 06/175814 · 3 anos coordenando programa de cessação no SUS

Este texto tem caráter educativo e não substitui psicoterapia, avaliação individual ou orientação médica. Medicamentos para cessação exigem prescrição e acompanhamento médico.