Psi Malu Gouveia
13 de julho de 2026Psicoterapia6 min de leitura

O que falar na terapia quando você não sabe o que dizer

"E se eu chegar lá e não tiver assunto?" Esse medo adia mais primeiras sessões do que o preço ou a agenda. Ele parte de uma premissa equivocada: a de que a terapia depende de você chegar com uma pauta pronta. Não depende.

Na terapia, você pode falar de qualquer coisa: o que aconteceu na semana, uma preocupação recorrente, uma lembrança, um incômodo que parece bobo. Não existe assunto errado nem assunto pequeno demais. Conduzir a conversa é trabalho da psicóloga — não seu. E quando você trava, o próprio travamento vira material de trabalho.

De onde vem o medo de "não ter assunto"

Esse receio costuma dizer mais sobre a pessoa do que sobre a terapia — e por isso é valioso. Quem teme não ter o que dizer geralmente carrega alguma dessas crenças: "meus problemas não são graves o suficiente", "vou tomar o tempo de alguém com bobagem", "preciso ser interessante para merecer atenção". Repare: são exatamente os padrões de autoexigência e autocensura que a terapia trabalha. O medo de não ter assunto já é assunto.

Não existe assunto errado

Na prática clínica, os temas mais transformadores raramente chegam anunciados. Eles aparecem disfarçados de banalidade: a irritação com um colega que revela um padrão de engolir limites; o comentário sobre o sono ruim que abre a porta para uma preocupação crônica; a piada sobre a própria desorganização que esconde uma autocrítica feroz. Por isso não faz sentido filtrar o que é "digno" de sessão. O critério não é a importância aparente do tema — é o que ele carrega. E isso, nós descobrimos juntos, falando.

Alguns pontos de partida que sempre funcionam, se você quiser chegar com algo em mãos:

Como eu conduzo quando você trava

No meu consultório, você nunca fica sozinho com o silêncio constrangedor. Trabalho com TCC, o que significa que a sessão tem estrutura: retomamos a semana, os registros e as tarefas combinadas, e a partir daí sempre há fio para puxar. Se mesmo assim você travar, eu pergunto — sobre o corpo, sobre o momento, sobre o que passou pela sua cabeça segundos antes de dizer "não sei". Quase sempre há algo ali. Conduzir esse processo é minha função técnica, não um favor. Você não precisa performar; precisa apenas comparecer.

O silêncio também é material

Nem todo silêncio é travamento. Às vezes é o tempo que uma ideia difícil leva para virar frase. Às vezes é emoção chegando antes da palavra. E às vezes o que você não consegue dizer aponta exatamente para o ponto mais sensível — aquele que a conversa fluida contorna há anos. Um bom processo terapêutico não trata o silêncio como falha do paciente: trata como informação. O que cala em você também fala.

Vale dizer: este texto é sobre o que acontece dentro das sessões ao longo do processo. Se a sua dúvida é sobre o primeiro encontro especificamente — o que a psicóloga pergunta, como funciona o sigilo, como decidir se continua —, escrevi um guia próprio: primeira sessão de terapia: o que esperar. E se você ainda está decidindo se começa, este ajuda: como saber se é hora de começar terapia.

Perguntas frequentes

E se eu não tiver nada para falar na sessão?

Isso acontece com todo mundo em algum momento — e a sessão funciona mesmo assim. A psicóloga conduz a conversa com perguntas e com a estrutura do processo. Muitas vezes, as sessões que começam com "não sei o que dizer" acabam sendo as mais produtivas.

Posso falar de coisas "bobas" na terapia?

Pode — e deve, se elas estão ocupando espaço. Temas aparentemente banais costumam carregar os padrões mais importantes: uma irritação pequena pode revelar um limite engolido há anos. O filtro do que é relevante é trabalho conjunto, não pré-requisito de entrada.

Preciso contar tudo para a psicóloga?

Não. Você conta o que quiser, no ritmo que conseguir. Assuntos difíceis podem esperar até que haja confiança — e dizer "não estou pronto para falar disso" é uma frase perfeitamente aceitável em sessão. O sigilo profissional protege tudo o que for dito.

Atendo presencialmente em Valinhos-SP e online para todo o Brasil. Se o medo de não saber o que dizer é o que está te segurando, pode agendar uma conversa inicial — sem compromisso, e sem precisar chegar com pauta pronta.

Malu Gouveia Psicóloga · CRP 06/175814 · Especialista em Psicologia Positiva pela UPenn

Este texto tem caráter educativo e não substitui psicoterapia ou avaliação individual. Se você está em sofrimento intenso, procure ajuda profissional — ou ligue 188 (CVV, 24h, gratuito).